Tal como vos tinha prometido em anteriores mensagens, fica aqui uma com mais algumas fotos sobre a reclinada que fiz e que entretanto necessita de ser reparada.
A bicicleta reclinada na versão inicial (de mais de 17 kg)
aparece aos 46 segundos e, também, aos
3 minutos e 15 segundos
Aspecto do quadro principal com as alterações introduzidas;
o tubo para o desviador dianteiro é de cobre,
pois é muito mais leve do que o ferro
O apoio da roldana de corrente (o qual, entretanto, cedeu... deixando a bicicleta no estaleiro),
os apoios do banco (à esquerda o das costas e à direita o inferior); a peça ao centro é feita em aço e cobre, sendo reforçada com carbono (por fora).
Um close-up da escora traseira
O pormenor da escora traseira, já pintada,
com um apoio para prender
o cabo das mudanças traseiras
O pormenor do desviador traseiro,
o aperto rápido KCNC
e a escora do banco
A solução encontrada para a afinação do alcance
do banco (distância do assento aos pedais);
em baixo, a roldana de corrente já aplicada
O curso dos cabos do travão de trás e
das mudanças traseiras
O curso das mudanças da frente
E, por fim, um exemplo prático de como ela se vê da perspectiva do ciclista:
A edição deste vídeo não foi muito feliz, mas conto na próxima mensagem publicar um novo vídeo, com uma comparação de desempenho entre a reclinada e a Vitus 979 Duralinox neste mesmo percurso.
Finalmente, uma mensagem completa sobre a bicicleta reclinada curta (SWB) que fiz (só está a faltar a pintura)!
Já referi que parte do material derivou do triciclo duplo reclinado que fiz. Há, contudo, muito material que foi instalado pela primeira vez nesta bicicleta.
Assim, o tubo principal do quadro, em Cro-Moly (aço enriquecido com carbono, molibdénio, entre outros componentes) com 65 mm de diâmetro, 2 mm de grossura de parede e 90 cm de comprimento, foi utilizado pela primeira vez nesta bicicleta.
Para além disso, todos os actuais componentes da bicicleta (pedaleiro, rodas, travões, desviadores, manípulos de mudanças, pneus, câmaras de ar, corrente, etc) foram pensados para esta bicicleta.
O resultado deste trabalho foram as características técnicas que constam da lista infra.
Guiador: KCNC Dark Side adaptado Avanço: Ritchey Comp Avanço inferior: Feito à medida em aço, latão e carbono Desviador traseiro: Deore XT RD-M772-SGS Shadow Desviador dianteiro: Deore XT FD-M751 Manípulos de mudanças: SRAM Attack Shorty Twist Shifting Levers – 3 x 9 Pedaleiro: Deore FC-M590 (26-36-48) com dois pratos Stronglight Comp dia 104 (26-40); setup final 26-40-48 Rolamento do movimento pedaleiro: Shimano SM-BB51 Rolamentos de direcção: Ritchey Scuzzi Pro Logic – Silver, 1” Cremalheira (cassete) traseira: Shimano CS-HG50-9, 11-25, 9 velocidades Travão dianteiro: Campagnolo BR-12TTFLP Lateral Pull (de contra-relógio) Travão Traseiro: Shimano Sora Br3400 dianteiro Alavancas de travão: Shimano BL-R550, black – para travões de estrada e guiadores direitos Roda dianteira: Fulcrum Racing 7 700c Roda traseira: Fulcrum Racing 7 700c Pneu da frente: Schwalbe Lugano, 700c x 23 Pneu de trás: Schwalbe Lugano, 700c x 23 Corrente: Shimano Ultegra + XT CN-HG93 de 9 velocidades Cremalheira de força para redireccionamento da corrente: Terracycle Sport strenght Idler Pedais: Crankbrothers Eggbeater 1 Altura do movimento pedaleiro: 35,04” (89 cm) Altura do assento: 23.622" (60cm) a meio das possibilidades Distancia entre eixos: 43,307” (110 cm) Peso: 27.99 lbs. (12,7 kg) sem pedais nem cochim respirável Amplitude das mudanças (velocidades): 29-122"
A construção desta bicicleta baseou-se, por um lado, na utilização de valores comummente aceites pela literatura do género, como a distancia entre eixos, a altura do assento, a inclinação do assento, por outro lado, na comparação com modelos de bicicletas com sucesso junto dos ciclistas e, ainda, com a minha própria experiência na utilização da bicicleta em vários estádios evolutivos.
Assim, tentei subir os troços mais íngremes de estrada (porque uma das dificuldades que é geralmente atribuída às bicicletas reclinadas curtas é a dificuldade de circular a baixa velocidade) experimentei descer as descidas mais inclinadas (porque uma outra característica que é atribuída a estas bicicletas é a possibilidade de se levantar a roda traseira numa travagem muito forte) experimentei andar em ruas estreitas, com e sem atrelado (neste vídeo a minha filha ia no atrelado, a brincar com as bonecas enquanto eu ia andando), experimentei andar pela cidade (não foi em Lisboa... Mas ainda assim é uma cidade... Com trânsito).
E, depois dessas experiências todas, notei que:
- Não encontrei nenhum condutor que não me tivesse visto (uma reclinada curta de roda 700c é perfeitamente visível);
- Consegui sempre fazer contacto visual directo com os condutores (a minha cabeça fica à altura da deles; excepção feita aos jipes);
- Apesar da ausência de suspensão, as minhas viagens foram sempre mais confortáveis do que em qualquer outra bicicleta que eu tenha experimentado;
- As rodas de 26 polegadas (ERTRO 509) são menos confortáveis do que as rodas de 28 polegadas (ERTRO 622), mesmo passando para um pneu muito mais fino (em concreto, experimentei os Schwalbe Kojac 26x1.5, os Schwalbe Lugano 622x23c e os Schwalbe Marathon 622x25c e 622x32c);
- Arrancar e parar requer, de facto, prática;
- A velocidade a descer e em terreno plano é tão elevada (neste vídeo eu passo por um grupo de ciclistas; ver aos 40 segundos; passo novamente aos 3 minutos e 20 segundos) para o pouco esforço que se faz que as subidas parecem mais difíceis de fazer do que na realidade são;
- O desenho da bicicleta permite o transporte (sem qualquer adaptação nas barras de transporte de bicicletas normais, que eu já tinha);
- É difícil explicar / convencer outros de que não somos lunáticos e que há alguma racionalidade no conceito;
- Travar nunca foi um problema;
- Uma bandeira de sinalização ajuda, mas retira-nos cerca de 2 km/h na média geral;
- A iluminação tem de ser aplicada ao espigão do desviador da frente com material próprio para o efeito (no caso, um adaptador da Terracycle);
- O quadro de bicicleta que eu fiz permite, sem qualquer adaptação, utilizar duas rodas de 26 polegadas (com ou sem suspensão à frente), uma roda de 26 polegadas ou 700c atrás e uma roda de 20 ou 24 polegadas à frente; ou duas rodas de bicicleta de estrada (700c), pois as alterações na posição de condução são todas adaptáveis;
- Para pessoas com menos de 1,70 m de altura, a única configuração viável é a que tem uma roda de 20 polegadas à frente;
- O peso da bicicleta importa muito quando começamos a subir.
Nessa altura fiz imensa pesquisa sobre os tipos de bicicleta reclinada, as principais vantagens e desvantagens de cada uma. É um pouquinho desse conhecimento que proponho partilhar aqui.
Como já tive oportunidade de explicar antes, há vantagens e desvantagens na opção por bicicletas longas (LWB) ou curtas (SWB).
Gunnar Fehlau (The Recumbent Bicycle, Out Your Backdoor, Williamston, 2.ª edição, 2003, pp. 91 e 92) sintetiza-as muito bem da seguinte forma que aqui traduzo livremente para simplificar a leitura:
Vantagens das RECLINADAS LONGAS (LWB):
Posição direita com grande visibilidade da estrada;
A Rans X-Stream (uma reclinada
longa de altas performances)
Os pés põem-se no chão com grande facilidade (ver o vídeo que coloquei aqui);
Paragens e arranques são fáceis (idem);
A linha directa da corrente facilita a utilização de todas as mudanças;
Quero-vos apenas informar de que o Bicycling2012 não está parado; simplesmente, devido a inúmeros constrangimentos, não me foi possível escrever (aqui, pelo menos).
Tenho, contudo, algumas coisas novas na calha.
Uma delas é a última versão da minha reclinada, que está em dieta para descer dos 16.2 kg para os 13 kg (de acordo com os cálculos e pesagens individuais das várias peças que fiz).
Neste momento, já foi alterado o quadro da bicicleta, tendo emagrecido cerca de 900 gr; falta-lhe apenas os pormenores dos para-cabos (cable stops), o apoio para o travão de trás e uns reforços em carbono que eu mesmo tentarei fazer no mecanismo da direcção, para lhe dar mais consistência.
Falta também alinhar os apoios da roda traseira, que não estão absolutamente paralelos e não estão a dar espaço suficiente para a corrente passar livremente na mudança mais pesada (carreto mais pequeno). Um livro que me ajudou a perceber esta parte e a dar instruções mais precisas foi o Bicycling Science.
Os apoios traseiro e inferior do banco eram um dos pontos menos bem conseguidos e foram redesenhados em alumínio, poupando cerca de 600 gr!
Os componentes levaram um upgrade de ambos os desviadores para XT, o pedaleiro Deore levou dois pratos usados muito mais leves e as mudanças passaram de 8 para 9 velocidades, com uns manípulos SRAM Attack.
As escoras traseiras, que eram em ferro, foram alteradas para alumínio, mas podem passar para alumínio com um tubo de carbono por dentro ou para topos em alumínio (embrulhado numa "folha" de carbono) com o veio central em tubo de carbono de 10mm ("soldado" à folha" de carbono dos topos). Logo se vê a resistência específica daquele carbono e os pesos que este pode adicionar.
Tubo de carbono de 10mm de diâmetro exterior
Kit de carbono
Já tenho todo o material de componentes cá; só faltam as peças de carbono que devem chegar lá para o fim da semana ou para o início da outra.
As bicicletas de que mais gosto são as reclinadas: são mais confortáveis, mais aerodinâmicas e permitem fazer grandes distâncias com pouco mal estar (pulsos, ombros, pescoço, etc.).
As bicicletas reclinadas são imensamente variadas e praticamente impossíveis de classificar.
Pelas características distintivas do quadro, do comportamento, do peso e dos fins a que se destinam são normalmente "classificadas" em dois tipos: com uma distância entre eixos curta (short wheelbase, ou SWB) e com uma grande distância entre eixos (long wheelbase, ou LWB).
Um exemplo de uma bicicleta reclinada LWB, a Sun EZ
As reclinadas LWB são normalmente mais confortáveis do que as SWB (e incomparavelmente mais confortáveis do que qualquer bicicleta comum) e mais fáceis de aprender a "conduzir", porque a maior distância entre as rodas as torna mais estáveis e permite uma maior absorção das irregularidades do terreno e porque têm os pedais a um nível inferior ao do assento e bastante mais próximo do solo.
As reclinadas SWB têm uma maior curva de aprendizagem mais longa, são menos práticas e mais nervosas mas compensam com uma velocidade mais elevada, quer nas subidas, quer em terreno plano. Nas descidas são ambas, por via de regra, muito mais rápidas do que uma bicicleta comum.
Um exemplo de uma bicicleta reclinada SWB, a Baccheta Strada
Qualquer tipo de bicicleta reclinada permite, pela sua posição, desfrutar amplamente a paisagem e, consequentemente o passeio (ou corrida): a posição é ergonómica - a cabeça está direita em vez de ir a fitar a roda da frente da própria bicicleta ou um ou dois metros mais à frente; o peso do corpo é distribuído por todo o assento - não se limita a sobrecarregar um triângulo de pouco mais de 15 cm2; e os braços apenas guiam - não suportam o peso de qualquer parte do corpo.
Apesar de os músculos utilizados numa bicicleta reclinada não serem os mesmos que utilizamos nas bicicletas mais comuns (de quadro em diamante) e de, por isso mesmo, a transição de uma bicicleta comum para uma reclinada não implicar geralmente um aumento da velocidade média do ciclista, a mudança de uma bicicleta para outra é como aprender a andar de bicicleta outra vez! Só que é muito mais divertido!
Na verdade eu - que nunca tinha ultrapassado a barreira dos 100km numa única volta, em qualquer tipo de bicicleta - fiz em Janeiro de 2012 uma prova Audace com a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB), com cerca de 128km de percurso, e consegui chegar ao fim sem cansaço de maior e, mais importante, sem qualquer tipo de dor nos pulsos, pescoço, ombros, ou outras partes do corpo geralmente massacradas com o selim. Em termos de tempo, fiquei a meio da tabela.
A minha bicicleta está lá atrás, por detrás dos dois ciclistas.
De partida, no mesmo (único) posto de controlo.
Nesta altura, a bicicleta tinha rodas de 26" (rodas típicas de montanha, ou BTT), uma bagageira, levei muita tralha comigo e o conjunto pesava cerca de 19,5kg, com as ferramentas e tudo!
Essa bicicleta reclinada, que tenho estado a (tentar) desenvolver, pode ser considerada como uma SWB e, posso atestar, é possível rolar com estas bicicletas, com um esforço moderado (~150-160W), a cerca de 33km/h em terreno plano. Em sprint só me foi possível rodar a 46km/h, mas ainda tenho de fazer muitos quilómetros até ter a musculatura toda desenvolvida.
Confesso que me divirto ao ultrapassar alguns ciclistas que vão nas suas bicicletas de 9kg e que não conseguem acompanhar o ritmo... Se eles soubessem que não é do ciclista, mas da bicicleta!
Entretanto, aquela bicicleta já evoluiu e está agora na sua versão 2.1, mais leve, mais aerodinâmica e, quanto a mim, mais bonita.
Com rodas de estrada (700C), mas ainda com a transmissão de BTT,
para permitir uma maior amplitude de mudanças
(ainda me falta força nos músculos certos)
Um exemplo da posição em pleno andamento.
O peso não está tão baixo como eu gostaria (pesa 16,3 kg com os pedais), mas ainda é um protótipo e tem muitas peças que não serão as definitivas e que se destinam a aperfeiçoar o conceito e as soluções (work in progress).
Com todos os acessórios montados (apoio para luz à frente, luzes à frente e atrás, suporte de garrafa, gps e ciclocomputador e seus apoios, protecção de corrente quase integral, espelho retrovisor, e um saco atrás do banco), não está particularmente pesada, com cerca de 17,2 kg.
Se pensarmos bem, para uma primeira experiência de bicicleta reclinada sem qualquer peça em carbono, ou alumínio (à excepção do garfo da roda da frente, que é em alumínio) não está excessivamente pesada: a Nazca Gaucho, que é uma bicicleta conceituada, pesa cerca de 15,5 kg em ordem de marcha. Ou seja, pesa menos 0,8kg do que a minha.
Do meu conhecimento, em Lisboa, a Cenas a Pedal é a única empresa que aluga uma bicicleta reclinada e que as tem à venda. Mas podem sempre procurar encontrar outras empresas e experimentar outras bicicletas reclinadas, algo que os mais versados nas bicicletas reclinadas sempre aconselham nos seus blogs e vídeos.
Deixo a provocação: assim que começarem a andar de reclinada não vão voltar atrás (once you go 'bent you'll never go back). Eu já não penso em comprar uma bicicleta de estrada.